BRASIL, Sudeste, BELO HORIZONTE, Mulher, de 26 a 35 anos
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Viver nem não é muito perigoso?



Esta vida está cheia de ocultos caminhos.

Se o senhor souber, sabe;

não sabendo, não me entenderá.

GUIMARÃES ROSA



Escrito por Daniela Bianchini às 11h59
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Todos estão loucos, neste mundo?

Porque a cabeça da gente é uma só,

e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes,

e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.

GUIMARÃES ROSA



Escrito por Daniela Bianchini às 11h57
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"O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim,
forro, sou nascido diferente.
Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo...
Eu quase que nada não sei.
Mas desconfio de muita coisa.
O senhor concedendo, eu digo:
para pensar longe, sou cão mestre -
o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira,
e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!"

 
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."
João Guimarães Rosa
 
"Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia."
Grande Sertão:Veredas
João Guimarães Rosa
 
 
 


Escrito por Daniela Bianchini às 11h52
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Você Aprende...

 

Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de uma criança e não com a tristeza de um adulto.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.

E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam...

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,

Ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destrui-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam.

Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

(CONTINUA ABAIXO...)



Escrito por Daniela Bianchini às 15h11
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(Continuando...)

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa.

Por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga,

Você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!

"Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."

 

 

 

AUTOR DESCONHECIDO



Escrito por Daniela Bianchini às 15h10
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A DESCOBERTA DO MUNDO


Se o meu mundo não fosse humano, 


também haveria lugar para mim: 


eu seria uma mancha difusa de instintos,


doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta:


se o mundo não fosse humano eu me arranjaria sendo um bicho. 


Por um instante então desprezo o lado humano da vida 


e experimento a silenciosa alma da vida animal.


É bom, é verdadeiro, ela é a semente do que depois se torna humano.

                                                  Clarice Lispector

 



Escrito por Daniela Bianchini às 18h57
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A carta

 Adriana Falcão

Prezada Nena,


Espero que esta lhe encontre gozando de muita saúde, assim como todos os seus.

Nem três meses faz que a gente chegou aqui e já deu pra reparar que as diferenças daí são muitas, porém são muitas também as parecenças.

Este Rio de Janeiro é tão amostrado, Nena, que parece até que a gente tá na França de tanto canto lindo que aparece. Por outro lado, tem hora que dá pra jurar que aqui é aí, tamanha a desgraceira. O povo daqui, sendo rico ou sendo pobre, fala igualmente alto. Só não sei o motivo de tanta gritaria, se é falta de alegria ou se é falta de tristeza.

O Maracanã é grande mesmo, e se a pessoa for arrodear ele a pé leva bem meia hora, Nena.

A Lagoa por fora é uma beleza, infelizmente é estragada por dentro.

O que você não ia acreditar era em cada túnel, não sei quantos, devido ao fato de aqui ter muita pedra. O Cristo Redentor, quando acende lá em cima, é todinho o Cristo Redentor, exato como ele aparece nas novelas. Já o Pão de Açúcar, esse de fato são dois, o maior e o menor, mesmo tendo nome de um apenas. Se Nossa Senhora me der um tantinho assim mais de coragem, juro que ainda tomo aquele bonde.

O céu daqui fica muito mais perto do chão do que o daí. É só olhar pro topo dos prédios e lá está ele, parado, logo ali em cima, diariamente. Dia que tem nuvem só se enxerga o pé do morro. Noite que tem chuva só se escuta a choradeira.

A gente vai levando como Deus quer e consente, ora é uma coisa, ora outra, ora nem uma coisa nem outra, e é aí que o negócio pega. De trabalho mesmo só me apareceu uma faxina, dia de quarta, na casa de uma mulher que mora em Copacabana. Ela não paga muito não, em compensação tem tanta prata que dá até gosto limpar tudo e depois empilhar bem direitinho.

Avise a Neto que, quando as coisas melhorarem, eu começo a juntar dinheiro pra comprar o celular dele. Quem sabe até o fim do ano eu deposito uns duzentos. Mande dizer o número da conta, mas copie com cuidado, que de outra vez o algarismo veio errado e foi uma agonia de vai no banco e volta não sei quantas vezes, isso que você não avalia o tamanho da fila.

Não fosse a perna de mãe que não desincha nem com antibiótico nem com rezadeira, de resto tudo tá mais ou menos nos conformes. Só não sei dizer o que é pior, se é o custo de vida ou a saudade, pois aqui não tem cheiro de cana, Nena, e até hoje não vi um único pé de algaroba pra chorar mais eu, portanto tenho que chorar sozinha.

Eu continuo procurando um quarto grande que dê nós quatro dentro, pois morar de favor na casa dos outros, além de ser bastante desagradável, ainda por cima é ruim demais. Por mais que se ajude na despesa e no serviço, pensa que resolve? Olhe que se tem coisa que eu não sou é desagradecida, mas tia Carminha vive de cara feia, e as meninas reclamam de tudo, é um aperto danado, imagine só o desmantelo. Tem dia que eu me dano a andar cidade afora somente pra não escutar queixa por queixa. Esquecendo as desavenças, vai se indo.

Para o mês, Mariinha completa quinze anos. Na ausência de festa, faz-se um bolo. Ela está namorando um rapaz muito direito que toma conta de carro em rua de rico, embora eu pense que ela ainda não esqueceu Zé Geraldo aí do posto. Júnior arrumou emprego, mas desarrumou em seguida, e tá parado no momento. Eu mesma já repeti mais de mil vezes pra ele largar de ser desleixado e tratar logo de aprender a mexer em computador, pois hoje em dia quem não se entende com o dito não arranja nada decente nessa vida. Pelo visto ele puxou mesmo ao pai, inclusive na leseira.

Por falar no desinfeliz do pai dele, já bati a cidade inteira e ainda não encontrei o homem. Também, como é que eu ia adivinhar que o Rio de Janeiro era tão grande?

Tenho pra mim que ele tava era me enganando o tempo todo com essa conversa de mandar buscar a gente no Natal, ou então não teria escrito o endereço errado, que essa tal rua que ele falou nem existe, Nena.

Se eu encontrar o triste, ligo a cobrar avisando. Dia de domingo é mais barato. Mesmo não encontrando, ligo de todo modo, uma vez que, com homem ou sem ele, a vida segue.

Nena, não se esqueça de aguar minhas plantas nem de dar de comer à Duquesa.

Deus lhe pague em dobro tudo que você fez por mim, por mãe e pelos meninos.

A sorte ajudando, dia desses eu tiro na raspadinha e mando passagem de leito pra você mais Neto virem conhecer o Rio. Reze daí que eu rezo de cá.

Dê lembranças minhas a todos e aceite todo o carinho da sua eterna amiga,

Doris.



Escrito por Daniela Bianchini às 18h49
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"Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor."

(Os Estatutos do Homem - Thiago de Mello)

 



Escrito por Daniela Bianchini às 18h41
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"É um amor impossível o de peixe e pássaro.
Nunca podem estar juntos.
O pássaro morre afogado na água.
O peixe morre afogado no ar.
Depois, peixe e pássaro não tem mãos para amar.
Não sei nada sobre o coração de peixe nem de pássaro.
Penso que devem ter muita esperança."

(Bartolomeu Campos Queiroz, em O Peixe e o Pássaro)

 

 

 



Escrito por Daniela Bianchini às 18h40
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"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."

(O Amor Acaba - Paulo Mendes Campos)



Escrito por Daniela Bianchini às 18h30
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Os Estatutos do Homem 

Thiago de Mello
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade. 
agora vale a vida, 
e de mãos dadas, 
marcharemos todos pela vida verdadeira. 
 
Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana, 
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 
têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III  
Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra; 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV   
Fica decretado que o homem 
não precisará nunca mais 
duvidar do homem. 
Que o homem confiará no homem 
como a palmeira confia no vento, 
como o vento confia no ar, 
como o ar confia no campo azul do céu. 

        Parágrafo único:  
        O homem, confiará no homem 
        como um menino confia em outro menino. 

Artigo V  
Fica decretado que os homens 
estão livres do jugo da mentira. 
Nunca mais será preciso usar 
a couraça do silêncio 
nem a armadura de palavras. 
O homem se sentará à mesa 
com seu olhar limpo 
porque a verdade passará a ser servida 
antes da sobremesa. 

Artigo VI  
Fica estabelecida, durante dez séculos, 
a prática sonhada pelo profeta Isaías, 
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII  
Por decreto irrevogável fica estabelecido  
o reinado permanente da justiça e da claridade,  
e a alegria será uma bandeira generosa  
para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII   
Fica decretado que a maior dor 
sempre foi e será sempre 
não poder dar-se amor a quem se ama 
e saber que é a água 
que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX   
Fica permitido que o pão de cada dia 
tenha no homem o sinal de seu suor.   
Mas que sobretudo tenha  
sempre o quente sabor da ternura. 

Artigo X  
Fica permitido a qualquer  pessoa, 
qualquer hora da vida, 
uso do traje branco. 

Artigo XI   
Fica decretado, por definição, 
que o homem é um animal que ama  
e que por isso é belo, 
muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII   
Decreta-se que nada será obrigado  
nem proibido, 
tudo será permitido,  
inclusive brincar com os rinocerontes  
e caminhar pelas tardes  
com uma imensa begônia na lapela. 

        Parágrafo único:  
        Só uma coisa fica proibida: 
        amar sem amor. 

Artigo XIII   
Fica decretado que o dinheiro 
não poderá nunca mais comprar 
o sol das manhãs vindouras. 
Expulso do grande baú do medo, 
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 
para defender o direito de cantar 
e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final.   
Fica proibido o uso da palavra liberdade,  
a qual será suprimida dos dicionários  
e do pântano enganoso das bocas. 
A partir deste instante 
a liberdade será algo vivo e transparente 
como um fogo ou um rio, 
e a sua morada será sempre  
o coração do homem.



Escrito por Daniela Bianchini às 15h57
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Língua de criança é a imagem da língua primitiva.
Na criança fala o índio, a árvore, o vento.
Na criança fala o passarinho.
O riacho por cima das pedras soletra os meninos.
Na criança os musgos desfalam, desfazem-se.
Os nomes são desnomes.
Os sapos andam na rua de chapéu.
Os homens se vestem de folhas no mato.
A língua das crianças contam a infância em tatibitati e gestos."

(Manoel de Barros)

 

 

"O garoto gosta de desenhar, tem um certo jeito. Mostra-me os desenhos quando os termina, alguns eu guardo para mostrar-lhe quando crescer. Hoje desenhou o mar. Azul. O mar e uma caravela que ele chama de navio.
- Mas o mar não é verde? Na praia você mesmo disse que o mar é verde. Por que você o colore de azul?
- Se desenhar o mar de verde mistura com a cor das árvores, por isso a cor do mar é azul.
- Entendo."

(Edgard Pereira, em "Outono Atordoado")

 

Miguilim não sabia muitas coisas. - Mãe, a gente então nunca vai poder ver o mar, nunca?" Ela glosava que quem-sabe não, iam não, sempre, por pobreza de longe. - "A gente não vai, Miguilim" - o Dito afirmou: "Acho que nunca! A gente é no sertão. Então por que é que você indaga?" - "Nada, não, Dito. Mas às vezes eu queria avistar o mar, só para não ter uma tristeza..."

(Guimarães Rosa, em "Manuelzão e Miguilim" - "Campo Geral")

 

 

 

"No aeroporto o menino perguntou:
- E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
- E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo."

(Manoel de Barros)

 

 

"A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data."

(Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas")

 

 

"(...) No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.(...)"

(A Menina Avoada - Manoel de Barros)

 

 

Um dia de chuva é bom para a gente comprar livros de poemas... Quem perguntar por que, de nada lhe adianta comprar um livro de poemas."

(Mário Quintana)

 

"(...) No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. (...)"
(Manoel de Barros)



Escrito por Daniela Bianchini às 15h54
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Quem entende Portugal?
As advertências aos consumidores abaixo foram colecionadas em
hipermercados portugueses, em duas horas apenas, por um médico
brasileiro que ministrou curso em Lisboa, a convite da OMS.

 


Num secador de cabelos:
"NAO USE QUANDO ESTIVER DORMINDO"

(Sei lá, você pode querer ganhar tempo.)

 


Na embalagem do sabonete anti-séptico Dial:
"INDICAÇÕES: UTILIZAR COMO SABONETE NORMAL"

(Boa! Cabe a cada um imaginar pra que serve um sabonete anormal)

 


Em alguns pacotes de refeições congeladas Swan:
"SUGESTÃO DE APRESENTAÇÃO: DESCONGELAR PRIMEIRO"

(É só sugestão, tá ok? De repente o pessoal pode estar a fim de chupá-las como picolé.)

 


Numa touca para a ducha:
"VÁLIDO PARA UMA CABEÇA"

(Alguém muito romântico poderia colocar a sua e a da amada na mesma touca.)

 


Na sobremesa Tiramisú da marca Tesco, impresso no lado de baixo da caixa:
" NÃO INVERTER A EMBALAGEM"

(Opa! Se você leu o aviso, é porque já inverteu!)

 


No pudim da Marks & Spencer:
"ATENÇÃO: O PUDIM ESTARÁ QUENTE DEPOIS DE AQUECIDO"

(Brilhante!)

 


Na embalagem do ferro de passar Rowenta de fabricação alemã:
"NÃO ENGOMAR A ROUPA SOBRE O CORPO"

(Gostaria de conhecer a infeliz criatura que não deu ouvidos a este aviso)

(continua abaixo...)



Escrito por Daniela Bianchini às 11h42
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(continuando...)

 

Num medicamento pediátrico contra o catarro infantil, da Boots:
"NÃO CONDUZA AUTOMÓVEIS NEM MANEJE MAQUINÁRIA PESADA DEPOIS DE TOMAR ESTE MEDICAMENTO"

(Tantos acidentes poderiam ser evitados se fosse possível manter esses
travessos  miúdos de 4 anos longe dos volantes dos carros e dos tratores Caterpillar)

 


Nas pastilhas para dormir da Nytol:
"ADVERTÊNCIA: PODE PRODUZIR SONOLÊNCIA"

(Pode não, deve! Foi prá isso que eu comprei).

 


Numa faca de cozinha:
"IMPORTANTE: MANTER LONGE DAS CRIANÇAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO"

(Será que lá os cachorros e gatos são ninjas disfarçados? Nunca vi nenhum mexer em faca!)

 


Numa caixa de luzes decoração de Natal:
"USAR APENAS NO INTERIOR OU NO EXTERIOR"

(Alguém pode me dizer qual é a 3ª opção?)

 


Nos pacotes de amendoim da Sainsbury:
"AVISO: CONTÉM AMENDOINS"

(Mania de estragar as surpresas!)

 

Numa fantasia infantil de Super-Homem:
"O USO DESSE TRAJE NÃO O TORNA APTO A VOAR".

(Olha como isso destrói a imaginação da criança!)



Escrito por Daniela Bianchini às 11h41
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Ótima essa!!!

Como ser brasileiro em Lisboa sem dar (muito) na vista

Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Lisboa sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis águas de bacalhau. Está vendo? Você já começou a não entender. O fato é que como dizia Mark Twain a respeito da Inglaterra e os Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. Se não acredita, vejá só esses exemplos. (...)

Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranqüilamente pela estrada Lisboa–Porto, quando deu de cara com um aviso: "Cuidado com as bermas". Eles ficaram assustados — que diabo seria uma berma? Alguns metros à frente, outro aviso: "Cuidado com as bermas". Não resistiram: pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que berma era o acostamento.

Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os ternos — peça para ver os fatos. Paletó é casaco. Meias são peúgas. Suéter é camisol — mas não se assuste, porque calcinhas femininas são cuecas. (Não é uma delícia?) Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas cuequinhas de bebê. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo — deve-se dizer pensos. Pasta de dente é dentifrício. Ventilador é ventoinha. E no caso (gravíssimo) de você ter de tomar injeção na nádega, desculpe, mas eu não posso dizer porque é feio.

As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunto-lhe onde se pode petiscar.

Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filé é chamado de prego; cachorros-quentes são simplesmente cachorros.

E não se esqueça: um cafezinho é uma bica; uma média é um galão; e um chope é um imperial. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e alguém gritar lá de trás: "O gajo está a furar a bicha!" Você não sabia, mas em Portugal, chama-se fila de bicha. E não ria.

Ah, que maravilha o futebol em Portugal! Um goleiro é um guarda-redes. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam camisola encarnada — ou seja, camisa vermelha. Gol é golo. Bola é esférico. Pênalti é penálti. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se aleijou, mesmo que se recupere com simples massagem. Gramado é relvado, muito mais poético, não é? (...)

Para se entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. É preciso traçar também uma outra lingüística. Para começar, não se diz criança mas miúdos. (Não confundir com miúdos de galinha, que lá são chamados de miudezas. Os miúdos das galinhas portuguesas são os pintos.) Quando o guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com o tradicional: "Dou-te uma coça" mas com "Dou-te uma tareia", ou então com o violentíssimo: "Eu chego-te a roupa à pele".

Um sujeito preguiçoso é um mandrião. Um indivíduo truculento é um matulão. Um tipo cabeludo é um gadelhudo. Quando não se gosta de alguém, diz-se: "Não gramo aquele gajo". Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer: "Estou-me nas tintas" ou então: "Estou-me marimbando". (...) Um homem bonito, que as brasileiras chamam de pão, é chamado pelas portuguesas de pessegão. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por quê, um borrachinho.

Mas o pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do meu quarto de hotel e eu telefonei para a portaria: "Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada?" O homem não entendeu uma única palavra. Eu devia ter dito: "Ó pá, manda um canalizador para reparar o autoclisma da retrete."

CASTRO, Ruy. Viaje bem. Revista de bordo da Varig. Ano VIII o 3/78

 



Escrito por Daniela Bianchini às 21h54
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